Marcelo G. Veloso
INTELIGÊNCIA IMOBILIÁRIA EM TORRES
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ANÁLISE · 20/09/2026

Comprar barato não é ganhar acima da média.

Com a renda fixa pagando 13,75% ao ano, o tijolo só entra na carteira do investidor se houver tese. E desconto não é tese.

Por Marcelo G. Veloso · 6 min de leitura

Palestra Marcelo Veloso

Marcelo Veloso

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A parcela que cabe é critério de morador.
Existe uma confusão que atravessa o mercado inteiro e custa caro: tratar o investidor como se ele fosse um comprador final com mais dinheiro.

O comprador final decide por fluxo. Ele olha a parcela, vê se cabe no orçamento do mês, e decide. É legítimo, é íntegro, e é a base do negócio — é a compra da moradia, da segunda casa, do lazer da família.

O investidor decide por outra coisa. A premissa dele é uma só: este capital vai sair de onde está para ser remunerado no tijolo. A partir dessa frase, "a parcela cabe" deixa de ser argumento. Passa a ser detalhe operacional de uma decisão que precisa ser tomada antes, e por outro critério.

Quando o profissional apresenta parcela para quem está alocando capital, ele não está vendendo mais fácil. Está respondendo à pergunta errada.
O retrovisor não é indicador.
O segundo erro mais comum é projetar o futuro com o gráfico do passado. "Aqui dobrou nos últimos cinco anos."

Dobrou sob outro juro, outra demanda, outra oferta e outro custo de obra. O mercado imobiliário é um organismo vivo: a oferta aumenta e retrai, a demanda muda de perfil, o custo do terreno descola do preço de venda. Olhar para trás mostra as condições daquela época, não as de agora.

E as de agora são verificáveis. Em setembro de 2026 o Copom levou a Selic a 13,75% ao ano — o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto, vindo dos 15% do início do ano. Do lado do custo, o INCC marcou 1,4% em abril, a maior elevação mensal desde junho de 2022, e a mão de obra subiu 8,82% em doze meses contra 4,14% de inflação oficial. A expectativa de crescimento da construção para 2026 foi revisada de 2% para 1,2%.

Esses são os números do presente. Uma tese se monta com eles — velocidade da demanda, comportamento da oferta, custo real, margem de segurança —, não com o retrovisor.
Todo desconto tem um motivo, e o motivo é o dado.
O mito do desconto destrói patrimônio, e destrói com a melhor das intenções.

Quem compra barato costuma achar que fez um grande negócio. Mas o imóvel barato frequentemente continua barato — e continuar barato é exatamente o que ele vai fazer se o motivo do preço for estrutural: localização sem vetor de crescimento, produto fora do encaixe da demanda, incorporador sem caixa, estoque alto no entorno.

Ganho acima da média vem de produto acima da média, com parceiro acima da média. Não vem do ticket. O tamanho do desconto não diz nada sozinho; o que diz é por que ele existe.

O investidor analítico faz essa pergunta antes de qualquer outra. Se o motivo do desconto prejudica o capital dele, ele não compra por preço nenhum. Se o motivo é uma parceria em que incorporador, investidor e corretor ganham juntos — velocidade de vendas em troca de condição, por exemplo —, aí sim existe janela. A diferença entre os dois casos não está no percentual. Está no fundamento.
O feeling é a experiência de quem não está pondo o capital.
"Estou há trinta anos nisso e minha experiência diz que é bom."

Experiência de mercado é um ativo real, e não há substituto para ela. Mas ela não é, sozinha, uma justificativa de alocação — porque o capital não é de quem tem a experiência. É do cliente. E o cliente tem alternativa: o mesmo dinheiro rende 13,75% ao ano num CDB com liquidez, sem obra, sem condomínio, sem IPTU e sem risco de execução.

É isso que o custo de oportunidade significa na prática. Suponha R$ 500 mil disponíveis e um horizonte de três anos. Mantida a taxa de hoje, esse capital na renda fixa chega a aproximadamente R$ 736 mil brutos — cerca de R$ 700 mil já descontado o imposto de renda de 15%. Um imóvel comprado por R$ 500 mil hoje precisa, portanto, valer perto de R$ 700 mil em três anos só para empatar — e isso antes de considerar corretagem na saída, condomínio, IPTU e o tempo até encontrar comprador.

Esse é o número que a tese tem que enfrentar. Ele não some porque ninguém o mencionou na apresentação.
O tripé só remunera quando está alinhado.
Nada disso é responsabilidade de uma parte só. O resultado no tijolo depende de três lados alinhados: o incorporador, que precisa entregar o plano de execução e uma política comercial estável; o investidor, que precisa somar à parceria em vez de criar pressão vendedora; e o corretor, que é o indutor de todo o arranjo.

Quando o profissional pressiona o cliente — a unidade que vai acabar, a tabela que sobe amanhã — ou pressiona a incorporadora — o desconto fora da política, a exceção —, ele está pedindo que alguém resolva por ele o que deveria ter construído: a tese.

E o preço de não construí-la aparece do outro lado. O capital do investidor não fica parado esperando: ele vai para onde há plano, indicador e horizonte declarado. Hoje isso é, com frequência, o mercado financeiro.
A pergunta que organiza a semana.
Vale responder sobre o último negócio apresentado a um investidor:

"Eu mostrei por que este capital rende mais aqui do que rende no banco, com número e prazo — ou apresentei um desconto e esperei que ele parecesse suficiente?"

Se foi a segunda, o negócio ainda pode fechar. Mas fecha sem ter educado o capital — e um capital que não foi educado não volta na próxima janela. Volta quem entendeu por que entrou, por quanto tempo ficaria e em que condição sairia.

Fundamento gera segurança. Segurança gera mais alocação. É um ciclo mais lento no começo e muito mais defensável depois — porque não é o desconto que fideliza o investidor, é a conta fechando.

Dados e fontes: taxa Selic de 13,75% ao ano definida pelo Copom em 16 de setembro de 2026, quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, partindo de 15% no início do ano — Banco Central do Brasil, apuração de imprensa econômica. INCC de 1,4% em abril de 2026 (maior elevação mensal desde junho de 2022), alta de 8,82% no custo da mão de obra em doze meses contra 4,14% de inflação oficial e revisão da expectativa de crescimento da construção em 2026 de 2% para 1,2% — CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção). A projeção de R$ 500 mil para aproximadamente R$ 736 mil brutos em três anos é cálculo próprio, supondo a Selic de hoje mantida no período e capitalização anual; o valor líquido aproximado de R$ 700 mil considera imposto de renda de 15% sobre o rendimento, alíquota aplicável a prazos superiores a 720 dias. Trata-se de exercício ilustrativo, não de projeção de rentabilidade.

Transparência: presto consultoria para a R.Dimer Incorporadora, que atua em Torres/RS. Esta análise não indica nenhuma incorporadora nem empreendimento específico. Sempre que uma publicação tratar de um ativo em que eu tenha vínculo comercial, o vínculo será declarado aqui.

Esta publicação tem caráter educacional e analítico. Não constitui recomendação de investimento.